domingo, 17 de setembro de 2017

Esperança do mundo, by Albert Camus

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Uma das coisas mais prazerosas para um leitor é ter acesso às correspondências, anotações e esboços de seu autor preferido. Esse voyeurismo literário permite-nos conhecer certos aspectos de um escritor que nem sempre estão explícitos em suas obras, como seus anseios e devaneios, suas inseguranças e angústias, mas também seus sonhos e suas fantasias, o que os tornam mais próximos de nós, que não raro mitificamos aqueles a quem admiramos.

Albert Camus foi um desses escritores que tinham por hábito manter cadernos de anotações que se tornariam um verdadeiro “laboratório de criação”, onde apareceriam esboçadas muitas ideias originais vistas posteriormente em suas obras.


Aqui no Brasil a Editora Hedra publicou três dos nove cadernos que Camus escreveu durante sua vida (de 1935 a 1959): Cadernos (1935-37) – Esperança do Mundo; Cadernos (1937-39) – A Desmedida na Medida; Cadernos (1939-42) – A Guerra Começou. Onde Está a Guerra? O primeiro caderno foi publicado em 1962, dois anos após a morte do escritor, e é dele que trataremos nesse post.

Como apreciador da escrita fragmentária (já escrevemos sobre isso aqui no Odepórica), me surpreendi com o fato de encontrar nas breves anotações de Camus, ainda na juventude de seus 22 anos, visões profundas e belas sobre a vida, prova de sua precoce genialidade filosófico-literária. No posfácio desse primeiro caderno, escrito a quatro mãos pelos tradutores e estudiosos da obra de Camus, Raphael Araújo e Samara Geske, lê-se o seguinte:

O caderno poderia ser considerado a primeira obra de Camus: mais do que uma base para o processo de criação de seus romances e ensaios, é também um espaço de experimentação e de escrita. 

A escrita fragmentada das notas, geralmente ligada à ideia de inacabamento, oferece, ao contrário, um campo de possibilidades ao escritor, que não precisa necessariamente estar ligado ao “todo” de um texto.

Algumas notas podem ser encaradas como fechadas em si mesmas: muitas delas encerram pensamentos, proposições morais e éticas, observações sobre o ser humano e a literatura.

Encontramos até mesmo alguns fragmentos poéticos que se assemelham aos haikus japoneses, quando fixam um momento, uma paisagem, um sentimento: “Florença. No recanto de cada igreja, um espetáculo de flores, grandes e brilhantes, peroladas de água, singelas”.



Há beleza por toda a parte, como sempre nas obras de Camus, um escritor que manejava as palavras como um mago o seu ofício. É fascinante o fato de um jovem de vinte e poucos anos escrever algo assim:

“Os sentidos e o mundo – os desejos se confundem. E neste corpo que eu aperto contra o meu, guardo também essa estranha alegria que desce do céu em direção ao mar”.

É sobretudo quando Camus observa a natureza, o que faz com frequência, que seu texto emociona mais profundamente. Ele possuía o dom de colocar em palavras a poesia que se esconde nas manifestações mais simples da vida, embora essa simplicidade ocultasse um profundo questionamento sobre a existência humana.

Viagens e paisagens camusianas

Nesse primeiro caderno as viagens de Camus aparecem em destaque, assim como seu encanto pela natureza, sua quase obsessão pelo céu e pelo sol - sua luz e calor, como se esses elementos fossem um combustível essencial para sua escrita.

Transcrevo a seguir as notas que considerei mais encantadoras, palavras que poderão lhe inspirar na próxima vez que seus pés tocarem a estrada. Permita-se.

Esse jardim do outro lado da janela, só vejo os muros. E algumas folhagens por onde a luz se espalha. Mais alto, ainda as folhagens. Mais alto, o sol. E de toda essa jubilação do ar que se sente fora, de toda essa alegria espalhada no mundo, eu só percebo as sombras das folhagens que brincam com as cortinas brancas. Cinco raios de sol também despejam pacientemente no cômodo um perfume dourado de capim seco. Uma brisa, e as sombras se animam na cortina. Que uma nuvem cubra e depois descubra o sol, e eis que da sombra surge o amarelo radiante desse vaso de mimosas. É suficiente: esse único raio nascente e eis que me inundo de uma alegria confusa e atordoante. Prisioneiro da caverna, aqui estou sozinho diante da sombra do mundo”.

O que faz o preço da viagem é o medo. É que em dado momento, tão longe de nosso país, de nossa língua, um medo indefinido nos toma, e um desejo instintivo de voltar ao abrigo dos velhos hábitos. É a mais clara contribuição da viagem. Nesse momento, estamos febris mas porosos.

O menor choque nos abala até o fundo do ser. Que se encontre uma cascata de luz, a eternidade está lá. É por isso que não é necessário dizer que se viaja pelo prazer. Não há prazer em viajar. Eu veria mais uma ascese. É por sua cultura que se viaja, se se entende por cultura o exercício de nosso sentido mais íntimo, que é o da eternidade. O prazer nos afasta de nós mesmos como o divertimento de Pascal distancia de Deus. A viagem, que é como uma ciência maior e mais séria, nos traz de volta.

Céu de tempestade em agosto. Ventos mordazes. Nuvens negras, ao leste. Contudo, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossível olhá-la. Sua presença é um incômodo para os olhos e para a alma. É que a beleza é insuportável. Ela nos angustia, eternidade de um minuto que nós gostaríamos no entanto de estender por todo o tempo.”

“Longa descida resplandecente de sol. Os loureiros-rosa em Mônaco e Gênova cheios de flores. As noites azuis da costa liguriana. Meu cansaço e aquela vontade de chorar. A solidão e a sede de amar.

Enfim Pisa, cheia de vida e austera, seus palácios verdes e amarelos, seus domos e, ao longo do Arno vagaroso, sua graça. Tudo o que há de nobre na recusa de se entregar. Cidade pudica e sensível. Nas ruas desertas da noite, tão perto de mim – que, de passear sozinho, finalmente me entrego à vontade de chorar. Alguma coisa aberta em mim que começa a cicatrizar.

Pisa e seus homens deitados na frente do Duomo. O Campo Santo, suas linhas retas, ciprestes nos quatro cantos. Compreendem-se as querelas dos séculos XV e XVI. Cada cidade conta aqui com sua aparência e sua verdade profunda.

Não há outra vida senão aquela de que meus passos marcavam a solidão ao longo do Arno. Aquela também que me agitava no trem que descia para Florença. Esses rostos de mulheres tão sérias, que um sorriso transformava subitamente. (...) Bebi nas fontes e a água estava um pouco morna, porém bem fluida. Descendo para Florença, eu me pus a contemplar rostos, beber sorrisos. Seria eu feliz ou infeliz? A pergunta tem pouca importância. Vivo com tal ímpeto.

Coisas, seres me esperam e, claro, eu os espero também e os desejo com toda minha força e minha tristeza. Mas aqui eu ganho minha vida de tanto silêncio e segredo.

O milagre de não precisar falar de si mesmo.

Os Giotto de Santa Croce. O sorriso interior de São Francisco, amante da natureza e da vida. Ele justifica aqueles que têm o gosto pela felicidade. Luz doce e fina sobre Florença. A chuva se prepara e enche o céu. Enterro de Giotto; a dor nos dentes cerrados de Maria.
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(...) As nuvens aumentaram por cima do mosteiro e a noite pouco a pouco escureceu as lápides nas quais se inscreve a moral da qual se favorecem aqueles que estão mortos. Se eu tivesse que escrever aqui um livro sobre moral, ele teria cem páginas, e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: “Eu só conheço uma obrigação: a de amar”. E, para o restante, digo não.

Leia: Esperança do mundo. Albert Camus. Ed. Hedra. São Paulo, 2014.
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